Decisão do TJ-RS Aborda Neurociência Aplicada à Publicidade de Agrotóxicos
Em um marco inédito no ordenamento jurídico brasileiro, a 3ª Câmara Cível do Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) utilizou um estudo neurocientífico como base decisória para reverter uma sentença de primeiro grau favorável à veiculação de uma campanha publicitária de agrotóxicos. A decisão reformada foi de um caso em que o Conselho Regional de Medicina do Estado (Cremers) havia ajuizado ação civil pública contra a propaganda veiculada por uma empresa do setor agrícola.
Relevância Jurídica e Novas Fronteiras no Direito
A controvérsia gira em torno da compatibilidade entre liberdade de expressão comercial (art. 220, §2º da Constituição Federal) e o direito à saúde coletiva (art. 196 da CF). Deste embate, emergiu um novo elemento jurídico: o estudo neurocientífico demonstrando que o conteúdo da propaganda ativava áreas cerebrais associadas à recompensa, mesmo quando havia evidências de risco à saúde, influenciando o receptor de modo inconsciente.
Publicidade e Princípio da Precaução
Segundo os magistrados do TJ-RS, os efeitos subliminares da peça publicitária afrontavam o princípio da precaução previsto em tratados internacionais dos quais o Brasil é signatário, bem como jurisprudência do STF sobre o dever de proteção do consumidor (RE 636.331 e ADI 4874).
Elementos Decisórios em Destaque
- Laudo técnico-pericial embasado em neuroimagem funcional.
- Aplicação do Art. 6º, IV do Código de Defesa do Consumidor quanto à adequada e clara informação sobre os riscos.
- Valoração do impacto da propaganda sobre populações vulneráveis como crianças, conforme o Estatuto da Criança e do Adolescente (Lei 8.069/1990).
Para o relator, desembargador Eugênio Facchini Neto, “a publicidade em questão não explicita os malefícios potenciais do produto anunciado, valendo-se de truques sensoriais que comprometem a autodeterminação informacional do público”.
Implicações para o Mercado Publicitário
A decisão abre precedentes para o uso de abordagens interdisciplinares no controle da publicidade e tem implicações diretas para setores econômicos que lidam com substâncias perigosas. Corrobora-se, assim, a função contramajoritária do Judiciário em tutelar direitos fundamentais, mesmo quando colidentes com interesses comerciais legítimos.
Nota-se também uma importante diretriz para agências reguladoras como o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (Conar) e a Anvisa, reforçando suas competências legais pela Lei 9.782/99.
Contexto Futuro: A Neuroética no Direito Brasileiro
Essa atuação do TJ-RS projeta novo horizonte sobre a admissibilidade de provas neurocientíficas no processo civil, tema ainda pouco explorado em nosso ordenamento. A tendência é que áreas como neurodireito, neuroética e neuropolítica ganhem relevo nos tribunais pátrios, especialmente em ações coletivas, tutela da saúde pública e comportamentos de consumo.
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Por Memória Forense



