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Rede social é condenada a indenizar por manter perfil ofensivo no ar

Decisão fixa R$ 30 mil por danos morais e reacende debate sobre o art. 19 do Marco Civil da Internet após o julgamento do STF.

Consultor Jurídico (ConJur)4 min de leitura
Rede social é condenada a indenizar por manter perfil ofensivo no ar
Foto: Maxim Ilyahov / Unsplash

A 4ª Vara Cível da Comarca de Santos condenou uma plataforma de rede social a pagar R$ 30 mil de indenização por danos morais a um usuário que teve um perfil falso mantido no ar mesmo após sucessivas notificações. O perfil era utilizado para imputar ao autor crimes de pedofilia e estupro e para veicular ameaças de morte contra ele e familiares. A decisão reforça a tese de que a inércia da plataforma diante de notificação extrajudicial idônea pode caracterizar ato ilícito autônomo, independentemente de ordem judicial específica.

Contexto

A responsabilidade civil de provedores de aplicação por conteúdo gerado por terceiros é um dos temas mais sensíveis do direito digital brasileiro. Desde a entrada em vigor do Marco Civil da Internet (Lei 12.965/2014), prevaleceu a leitura de que o art. 19 condicionava a responsabilização da plataforma ao descumprimento de ordem judicial específica de remoção — a chamada judicial notice and takedown. A regra foi pensada para proteger a liberdade de expressão e evitar censura privada, mas, na prática, criou um vácuo de proteção em hipóteses de ofensas graves, sobretudo quando o ofendido era pessoa comum sem acesso rápido ao Judiciário.

A controvérsia ganhou contornos constitucionais com o julgamento, pelo Supremo Tribunal Federal, do Tema 987 da repercussão geral, que reinterpretou o alcance do art. 19. A partir desse julgamento, firmou-se entendimento de que, em situações de ilícitos manifestos — discurso de ódio, crimes contra a honra evidentes, conteúdo sexual não consentido, induzimento a crimes contra a vida —, a plataforma pode ser responsabilizada já a partir de notificação extrajudicial, sob pena de configurar omissão indenizável. A decisão de Santos aplica essa diretriz a um caso paradigmático: imputação falsa de crimes de natureza sexual contra criança e adolescente, hipótese em que a gravidade do conteúdo dispensa juízo aprofundado sobre o conteúdo da fala.

O que foi decidido

O juízo de primeiro grau reconheceu que a plataforma foi devidamente cientificada da existência do perfil ofensivo e, ainda assim, permaneceu inerte por período juridicamente intolerável. A sentença concluiu que a manutenção do conteúdo, após notificação inequívoca, transmutou a responsabilidade subsidiária do provedor em responsabilidade direta pela perpetuação do dano. O arbitramento em R$ 30 mil considerou a natureza das acusações — particularmente lesivas à honra objetiva e subjetiva — e o fato de a vítima ter ficado exposta a ameaças que atingiram inclusive seu núcleo familiar.

O julgador destacou que a função compensatória e pedagógica do dano moral exige resposta proporcional ao porte econômico do ofensor e à reiteração da conduta omissiva. Não houve, segundo a decisão, demonstração de mecanismo eficaz de triagem ou resposta às denúncias, falha que se soma à omissão para agravar a reprovabilidade da conduta.

Base normativa e precedentes

  • Art. 5º, V e X, CF/88 — inviolabilidade da honra, da imagem e da vida privada, com direito à indenização por dano material e moral.
  • Art. 19 da Lei 12.965/2014 (Marco Civil da Internet) — regra geral de responsabilização do provedor após descumprimento de ordem judicial, hoje lida à luz da modulação fixada pelo STF no Tema 987.
  • Art. 21 da Lei 12.965/2014 — hipótese específica de responsabilidade subsidiária por notificação extrajudicial em casos de divulgação não consentida de nudez e atos sexuais, paradigma interpretativo para outros ilícitos manifestos.
  • Arts. 186, 187 e 927 do Código Civil (Lei 10.406/2002) — cláusula geral de responsabilidade civil por ato ilícito e abuso de direito.
  • Art. 14 do CDC (Lei 8.078/1990) — responsabilidade objetiva do fornecedor de serviços por defeitos na prestação, fundamento subsidiário utilizado em parte da jurisprudência quando reconhecida a relação de consumo com o usuário.
  • Jurisprudência consolidada do STJ — reconhece o dever de remoção em prazo razoável após notificação extrajudicial em hipóteses de ilícitos evidentes, especialmente perfis falsos.

Impacto prático

  • Plataformas digitais precisarão revisar fluxos de moderação para garantir resposta tempestiva a notificações extrajudiciais com indicação precisa de URL e descrição do ilícito.
  • Advogados ganham reforço para pleitear indenização sem necessidade de prévia ordem judicial de remoção quando o conteúdo se enquadrar em hipóteses de ilicitude manifesta.
  • Vítimas de discurso difamatório, sextorsão, deepfakes ou imputação falsa de crimes têm caminho mais ágil de tutela, podendo cumular pedidos de remoção liminar, identificação do ofensor (art. 22 do MCI) e indenização.
  • Empresas com presença digital devem mapear riscos reputacionais e estruturar protocolos de notificação a plataformas, preservando provas para eventual ação regressiva.

O que observar

A decisão é de primeiro grau e está sujeita a recurso. O TJSP tem precedentes oscilantes sobre o quantum indenizatório em casos análogos, e a tendência é de revisão para mais ou para menos conforme a prova da reiteração da omissão. Resta acompanhar como os tribunais estaduais absorverão a nova leitura do art. 19 do Marco Civil firmada pelo STF, sobretudo no tocante ao prazo razoável para retirada do conteúdo e à definição do que configura ilícito manifesto. Há ainda discussão pendente sobre eventual regulamentação infralegal pelo Congresso e sobre o papel da ANPD em interfaces entre dano moral digital e tratamento de dados pessoais quando o perfil falso envolve uso indevido de imagem e identidade.

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