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Falta grave não pode ser punida após extinção da execução penal

Juiz nega aplicação retroativa de sanção disciplinar referente a execução já extinta, invocando segurança jurídica e tempestividade.

Consultor Jurídico (ConJur)4 min de leitura
Falta grave não pode ser punida após extinção da execução penal
Foto: Matthew Ansley / Unsplash

Decisão de primeiro grau afastou a aplicação retroativa de sanção por falta grave cometida durante execução penal já extinta, ao fundamento de que a ausência de apuração tempestiva, somada ao encerramento formal do processo executório anterior, esvazia a possibilidade de reabrir o tema em nova execução. O magistrado Afonço Carlos Bierhals, do 2º Juizado da Vara de Execuções Criminais, entendeu que punir o apenado anos depois, em outro processo, violaria a segurança jurídica e a lógica do sistema disciplinar penitenciário.

Contexto

A disciplina no cumprimento de pena é regida pela Lei de Execução Penal (Lei 7.210/1984), que estrutura um regime sancionador próprio, com tipologia de faltas leves, médias e graves (arts. 49 a 51) e consequências severas: regressão de regime, perda de até 1/3 dos dias remidos (art. 127), interrupção do prazo para progressão e impacto no livramento condicional. A apuração depende de procedimento administrativo disciplinar (PAD), com contraditório e ampla defesa, conforme art. 59 da LEP e a Súmula Vinculante 5 não se aplica integralmente — o STF e o STJ exigem defesa técnica por advogado no PAD, conforme Súmula 533 do STJ.

Na prática forense, é comum que faltas graves apuradas em estabelecimentos prisionais demorem a chegar ao juízo da execução. Quando o apenado obtém a extinção da pena (art. 109 da LEP), encerra-se formalmente aquele processo executório. A controvérsia surge quando, posteriormente, o mesmo sentenciado retorna ao sistema por novo crime: pode o juízo da nova execução considerar, retroativamente, a falta grave não apurada na execução anterior — por exemplo, para fixar regime inicial mais gravoso ou afastar benefícios? A jurisprudência diverge, mas a tendência protetiva tem prevalecido, ancorada na coisa julgada material da extinção e na exigência de tempestividade da resposta disciplinar.

O que foi decidido

O juízo concluiu que não cabe ressuscitar suposta falta grave que poderia ter sido apurada e sancionada na execução anterior, mas não o foi até o trânsito em julgado da extinção da pena. O magistrado destacou que a sanção disciplinar tem natureza intrínseca à execução em que o fato ocorreu — esgotada aquela relação processual, exaure-se também o poder punitivo disciplinar correlato. Permitir o resgate da falta em novo processo executório implicaria sanção retroativa, em desacordo com a segurança jurídica e com a finalidade pedagógica imediata do regime disciplinar.

A decisão também enfatiza que a inércia estatal não pode ser convertida em ônus para o apenado. Se a administração penitenciária ou o Ministério Público deixaram de provocar o juízo no momento oportuno, a consequência é a impossibilidade de aplicação tardia da sanção, e não a sua perpetuação como mancha disciplinar permanente.

Base normativa e precedentes

  • Art. 5º, XXXVI, CF/88 — proteção ao ato jurídico perfeito e à coisa julgada, base da estabilização das decisões extintivas da pena.
  • Art. 5º, LIV e LV, CF/88 — devido processo legal, contraditório e ampla defesa, exigidos no PAD disciplinar.
  • Arts. 47 a 60 da LEP (Lei 7.210/1984) — regime disciplinar, tipificação das faltas e procedimento de apuração.
  • Art. 48, parágrafo único, e art. 118, I, da LEP — competência da autoridade administrativa para representar e do juízo para decidir sobre regressão por falta grave.
  • Art. 109 da LEP — extinção da pena, marco temporal que encerra a relação executória.
  • Súmula 533/STJ — exigência de PAD com defesa técnica para reconhecimento de falta grave, reforçando o caráter formal e tempestivo da apuração.
  • Súmula 534/STJ — a falta grave interrompe o prazo para progressão de regime, mostrando a gravidade dos efeitos que justificam apuração célere.

A jurisprudência consolidada do STJ tem reiterado que a falta grave precisa ser apurada em prazo razoável e que a demora estatal pode acarretar prescrição da pretensão disciplinar, aplicada por analogia ao art. 109 do Código Penal, tomando como parâmetro o menor prazo prescricional (dois anos, conforme entendimento dominante).

Impacto prático

  • Defesa criminal: reforça argumento para afastar anotações de faltas graves "redescobertas" em novas execuções, especialmente quando a execução anterior foi extinta sem registro da infração.
  • Progressão e livramento: impede que falta antiga e não apurada sirva de obstáculo a benefícios na nova execução, preservando o cômputo limpo do tempo de cumprimento.
  • Ministério Público e administração penitenciária: cria pressão por apuração tempestiva — a omissão tem custo, pois a sanção perde eficácia com a extinção da pena.
  • Juízos de execução: orientação para não admitir representações disciplinares extemporâneas vinculadas a processos já encerrados.
  • Cálculo de pena: contadorias passam a desconsiderar marcações disciplinares oriundas de execuções extintas sem decisão definitiva sobre a falta.

O que observar

A decisão é de primeiro grau e pode ser revista em recurso de agravo em execução (art. 197 da LEP). Convém acompanhar como os tribunais estaduais e o STJ tratarão hipóteses similares, sobretudo quando a falta grave foi apurada administrativamente, mas não homologada judicialmente antes da extinção. Outro ponto sensível é a definição do termo inicial da prescrição disciplinar — se da data do fato, do conhecimento pelo juízo ou da conclusão do PAD —, tema ainda sem uniformização plena. Para advogados criminalistas, é recomendável requerer certidão detalhada do histórico disciplinar e impugnar, desde a fase de cálculo, qualquer anotação proveniente de execução anterior já extinta sem decisão de mérito sobre a falta.

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