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Pesquisa jurídica no mestrado profissional: metodologia e aplicação prática

Análise das abordagens de pesquisa jurídica em programas de mestrado profissional e sua relevância para a prática profissional contemporânea

Revista Direito GV (FGV)4 min de leitura
Pesquisa jurídica no mestrado profissional: metodologia e aplicação prática

A pesquisa jurídica no âmbito do mestrado profissional representa uma inflexão importante na formação continuada de operadores do direito, diferenciando-se significativamente da tradição acadêmica dos cursos convencionais de pós-graduação stricto sensu. Diferentemente do mestrado acadêmico, que privilegia a produção teórica e contribuições originais ao conhecimento jurídico abstrato, o mestrado profissional articula investigação sistemática com aplicabilidade direta em contextos de prática jurídica concreta, atendendo ao que o meio jurídico contemporâneo demanda de seus profissionais.

Contexto

A consolidação do mestrado profissional como categoria distinta de formação superior no Brasil ocorreu gradualmente desde os anos 1990, consolidando-se institucionalmente a partir de regulamentações posteriores. Historicamente, a formação de pós-graduandos em direito concentrava-se em modelos akademisch, com ênfase em pesquisa teórica desconectada das demandas do mercado profissional. Essa separação gerou crítica recorrente de que a academia jurídica brasileira produzia conhecimento distanciado das necessidades reais de advogados, magistrados, promotores e gestores públicos.

A introdução de programas de mestrado profissional em direito surge justamente como tentativa de suprir essa lacuna, inserindo rigor metodológico característico da pós-graduação sem abrir mão da orientação prático-profissional. A pesquisa jurídica neste contexto não busca apenas compreender instituições e conceitos, mas transformar conhecimento em ferramentas de melhoria contínua da prática profissional e da gestão institucional.

O que foi analisado

A análise centra-se em examinar como a pesquisa jurídica se estrutura no ambiente do mestrado profissional, enfatizando os pressupostos metodológicos que a distinguem da investigação acadêmica tradicional. Questiona-se, fundamentalmente, qual é o objeto, o método e o propósito da pesquisa jurídica quando ela se inscreve em uma lógica profissional, ao invés de puramente teórica.

A reflexão proposta distingue entre pesquisa jurídica voltada à produção de conhecimento desinteressado (modelo acadêmico) e pesquisa jurídica orientada a resolver problemas concretos enfrentados por profissionais em exercício. Nesta última modalidade, a investigação deve estar fundamentada em questões reais extraídas da prática: qual é a melhor forma de interpretar uma norma ambígua? Como estruturar um contrato para evitar litígios? Quais caminhos processuais mais eficientes existem em determinada controvérsia? Como aprimorar a gestão de um tribunal ou órgão público?

Esta reconfiguração implica também repensar o papel da dogmática jurídica clássica. Se no mestrado acadêmico a dogmática representa ferramenta de investigação para construção conceitual, no profissional ela funciona como instrumento aplicado à resolução de questões práticas específicas. A diferença não é meramente de grau, mas de orientação epistemológica.

Base normativa e orientações metodológicas

Embora a pesquisa jurídica no mestrado profissional não seja regida por lei específica, está inserida no marco regulatório da pós-graduação brasileira conforme estabelecido pela Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES) e normatizações internas de universidades. Destacam-se:

  • Resolução CNE/CES nº 7, de 2017 — Define normas para funcionamento de cursos de pós-graduação stricto sensu, admitindo mestrados profissionais como categoria legítima com características próprias
  • Portarias CAPES — Estabelecem critérios de avaliação diferenciados para programas profissionais, valorizando aplicabilidade e impacto na prática profissional, não apenas publicações acadêmicas tradicionais
  • Regimentais institucionais — Universidades definem em seus estatutos como devem estruturar-se dissertações de mestrado profissional, frequentemente permitindo formatos alternativos como estudos de caso, protótipos, artigos publicáveis e trabalhos orientados à solução de problemas concretos

A metodologia não segue padrão único, comportando abordagens qualitativas (análise jurisprudencial sistemática, pesquisa documental crítica, estudo de caso), quantitativas (quando aplicáveis, como análise de dados de litigiosidade ou eficiência processual) e mistas.

Impacto prático na formação continuada

A pesquisa jurídica estruturada no mestrado profissional impacta significativamente advogados, magistrados, membros do Ministério Público e gestores públicos de distintas formas:

  • Advogados: Desenvolvem capacidade de investigação sistemática sobre jurisprudência e doutrina aplicável a demandas específicas de seus clientes, aprimorando estratégia processual e consultoria jurídica
  • Magistrados: Aprofundam compreensão de institutos jurídicos com aplicação imediata em suas decisões, reduzindo improviso hermenêutico
  • Promotores de Justiça: Fortalecem fundamentação técnica em investigações de improbidade, direitos coletivos e tutela de interesses públicos
  • Gestores públicos: Utilizam pesquisa jurídica para otimizar processos administrativos, conformidade regulatória e gestão de riscos legais
  • Formuladores de políticas: Obtêm diagnósticos baseados em evidência jurídica para desenho de políticas públicas e reformas normativas

Diferentemente da pesquisa acadêmica, cujos resultados se materializam em artigos e livros com circulação limitada no meio universitário, a pesquisa profissional gera produtos como pareceres aprofundados, protocolos procedimentais, manuais de boas práticas, modelos contratuais otimizados e recomendações para aprimoramento de políticas públicas.

O que observar

A consolidação do mestrado profissional em direito enfrenta desafios que merecem acompanhamento:

  1. Risco de instrumentalização excessiva: Quando a pesquisa profissional abandona reflexão crítica para servir meramente a demandas de mercado, perde capacidade de questionar estruturas jurídicas ineficientes ou injustas

  2. Avaliação e reconhecimento: A CAPES ainda valoriza fortemente publicações em periódicos acadêmicos tradicionais, criando tensão entre o que o mestrado profissional propõe (aplicabilidade) e como é avaliado (produção teórica)

  3. Qualidade metodológica: Nem todos os programas profissionais disponibilizam formação adequada em metodologia de pesquisa jurídica, risco de dissertações superficiais ou meramente descritivas

  4. Integração com prática: O desafio de garantir que a pesquisa realizada efetivamente retorne às instituições e profissões que financiam ou alimentam os programas

Advogados e profissionais que cursam mestrado profissional devem exigir que seus programas combinem rigor metodológico com utilidade prática genuína, evitando modelos que meramente reproduzem o mestrado acadêmico sob outro rótulo.

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