Revista Direito GV 2016: regulação, CADE e controle de constitucionalidade
Edição semestral reúne estudos sobre interfaces entre regulação e concorrência, judicialização do federalismo e eficácia do controle de constitucionalidade no Brasil
A edição semestral janeiro-junho de 2016 da Revista Direito GV da Fundação Getulio Vargas consolida um conjunto de estudos acadêmicos que refletem os principais debates jurídicos contemporâneos no Brasil, com foco especial nas intersecções entre regulação econômica, defesa da concorrência e constitucionalismo. Trata-se de publicação de referência para compreender as dinâmicas institucionais que moldam o direito público brasileiro.
Contexto
A revista apresenta-se em momento crítico da história institucional brasileira, quando o Poder Judiciário amplia sua atuação em questões de política regulatória e econômica. O contexto dos anos 2015-2016 marca intensificação dos debates sobre os limites do controle jurisdicional de atos administrativos, a legitimidade das políticas de concentração processual e a própria reconfiguração do federalismo por via judicial.
A obra coletiva reflete a preocupação acadêmica com três eixos fundamentais: (1) a qualidade e eficácia das políticas de controle de constitucionalidade no Brasil; (2) a tensão entre regulação econômica e aplicação das normas de defesa da concorrência; (3) o papel da judicialização como mecanismo de reconfiguração federativa.
Essa convergência de temas não é acidental. Desde a Constituição Federal de 1988, o Brasil enfrenta desafios estruturantes na separação de poderes, especialmente a capacidade do Judiciário em absorver demandas de controle abstrato sem comprometer previsibilidade normativa. Estudos anteriores já sinalizavam essa preocupação (inclusive com propostas de emenda constitucional, como a PEC 33/2011, analisada nesta edição), mas a questão permanecia aberta quanto aos resultados práticos das políticas concentradoras de jurisdição.
O que foi decidido
Não se trata de uma decisão jurisdicional específica, mas de uma coletânea de análises acadêmicas que sintetizam teses e questões jurídicas emergentes. Os artigos principais consolidam posições interpretativas sobre:
Regulação e defesa da concorrência: O estudo sobre interfaces entre regulação e defesa da concorrência aprofunda-se na atuação do CADE (Conselho Administrativo de Defesa Econômica) como órgão técnico essencial à implementação da política concorrencial. Analisa-se como a confluência entre setores regulados e competição cria dilemas de coordenação estatal, exigindo clareza normativa sobre as atribuições de cada agência.
Controle de constitucionalidade: A pesquisa sobre eficácia das políticas de concentração e seletividade examina se o modelo brasileiro de distribuição de competências entre Supremo Tribunal Federal e justiças ordinárias gera resultados adequados. Questiona-se se a concentração de controle abstrato no STF, associada a políticas de seletividade de causas (como a arguição de descumprimento de preceito fundamental e o modus operandi das repercussões gerais), de fato aprimora a proteção constitucional ou apenas restringe acesso à justiça constitucional.
Judicialização e federalismo: Explora-se como decisões judiciais redefinem as competências federativas, não por via legislativa formal, mas por construção jurisprudencial. O fenômeno da judicialização do federalismo representa uma forma oblíqua de alteração do pacto federativo, mediada pelo Poder Judiciário.
Segurança pública: Complementarmente, analisa-se a estrutura de policiais e segurança no contexto de um Estado com federalismo fragmentado, onde a judicialização de políticas de ordem pública afeta diretamente a efetividade de direitos fundamentais.
Base normativa e precedentes
- Constituição Federal de 1988 — marco regulador que disciplina controle de constitucionalidade (arts. 102-103) e repartição de competências federativas (arts. 21-24)
- Lei 8.884/1994 (após Lei 12.529/2011 — Lei de Defesa da Concorrência) — institui o CADE e define o sistema de defesa econômica
- Lei 13.105/2015 (CPC/2015) — reforma processual com implicações para a seletividade e concentração de demandas constitucionais
- Lei 4.717/1965 (Lei da Ação Popular) — instrumento de controle jurisdicional de atos públicos
- Lei 7.347/1985 (Lei da Ação Civil Pública) — mecanismo de tutela coletiva que amplifica atuação judicial em políticas públicas
Impacto prático
A síntese acadêmica apresentada interessa especialmente a:
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Advogados especializados em direito público e constitucional: A análise sobre eficácia do controle de constitucionalidade oferece argumentação estruturada para questionar ou defender políticas de seletividade processual perante o STF.
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Operadores do CADE e reguladores: O exame das interfaces entre regulação setorial e defesa da concorrência fornece ferramentas conceituais para resolução de conflitos normativos entre agências federais.
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Magistrados: A discussão sobre judicialização do federalismo traz clareza sobre os riscos institucionais de ampla intervenção judicial em matérias de competência legislativa.
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Formuladores de política pública: Os estudos sobre segurança pública e federalismo iluminam as consequências institucionais de decisões judiciais que reconfigurem responsabilidades entre entes federados.
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Pesquisadores e pós-graduandos: A edição consolida estado da arte em temas críticos de direito constitucional e administrativo, oferecendo base sólida para pesquisa futura.
O que observar
A edição reflete preocupações acadêmicas de 2016 que mantêm atualidade substantiva em 2024-2026:
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Modulação de efeitos e segurança jurídica: O STF, após essa edição, aprofundou práticas de modulação de efeitos de decisões constitucionais. A literatura coligida oferece subsídios críticos para avaliar se esse modelo preserva o Estado de direito.
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Experimentalismo regulatório: A convergência entre regulação setorial (agências) e defesa geral da concorrência (CADE) continua tensionada, especialmente em setores como energia, telecomunicações e transportes. A análise sobre "padrões privados" em regulação ganha relevância.
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Direito comparado: A inclusão de artigos em espanhol reflete abertura à comparação com direitos ibero-americanos. O modelo brasileiro de controle de constitucionalidade segue sendo singular, e a compreensão de alternativas institucionais (como observância de precedentes formais) permanece relevante.
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Próximas pesquisas: A edição sinaliza lacunas investigativas, especialmente sobre a efetividade prática de políticas concentradoras de jurisdição. Pesquisas empíricas posteriores (2018 em diante) refletem essa agenda inacabada.
Em síntese, a Revista Direito GV jan.-jun. 2016 consolida reflexão acadêmica madura sobre as estruturas formais de constitucionalismo, regulação e federalismo brasileiro, oferecendo referencial teórico-normativo essencial para juristas que buscam compreender as dinâmicas profundas de transformação institucional em curso.
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