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Revista Direito GV mapeia STF, direitos LGBT e refúgio em nova edição

Edição de 2022 reúne pesquisas empíricas sobre padrões decisórios do STF, direitos LGBT, refúgio e legaltech, refletindo virada metodológica no direito brasileiro.

Revista Direito GV (FGV)4 min de leitura
Revista Direito GV mapeia STF, direitos LGBT e refúgio em nova edição

A Revista Direito GV, periódico da FGV Direito SP, publicou em março de 2022 sua edição número 41, reunindo treze artigos e uma tradução que, em conjunto, sintetizam a virada empírica e interdisciplinar pela qual passa a produção jurídica brasileira. Entre os destaques estão um mapeamento quantitativo dos padrões de julgamento do Supremo Tribunal Federal em ações diretas de inconstitucionalidade entre 2010 e 2019, uma etnografia do Ministério Público paulista e estudos sobre direitos LGBT, refúgio, biodiversidade e legaltech.

Contexto

A pesquisa jurídica brasileira passou, nas últimas duas décadas, por uma reconfiguração metodológica relevante. O modelo tradicional — centrado em comentários doutrinários sobre normas e julgados isolados — convive hoje com abordagens empíricas, sociojurídicas, comparadas e quantitativas, em movimento liderado por programas como o da FGV, USP e UnB. A edição 41 da Revista Direito GV é representativa dessa transição: combina análises de jurisprudência com etnografia, análise econômica do direito, direito internacional e estudos de filosofia política.

O pano de fundo institucional é a centralidade adquirida pelo Supremo Tribunal Federal na arquitetura constitucional pós-1988. O controle concentrado de constitucionalidade, regulado pela Lei 9.868/1999 e ancorado no art. 102, I, a, da CF/88, transformou a Corte em ator político-decisório de primeira grandeza, tornando indispensável a compreensão estatística de seu comportamento. Paralelamente, temas como reconhecimento de direitos de minorias sexuais, política migratória e governança digital pressionam categorias clássicas do direito.

O que foi decidido

Não se trata, aqui, de decisão judicial, mas de um conjunto de pesquisas revisadas por pares. Entre os trabalhos que mais interessam ao público jurídico-prático destacam-se:

O estudo de Anderson Barbosa Paz sobre o padrão decisório do STF em ADIs ao longo de uma década, que se soma a uma literatura crescente sobre comportamento judicial e procura identificar tendências de procedência, modulação e perfis temáticos.

A análise de Lívia Gonçalves Buzolin sobre pluralismo político e a atuação do Judiciário em demandas LGBT, dialogando com precedentes como a ADI 4.277 e a ADPF 132, que reconheceram a união homoafetiva, e a ADO 26, que equiparou homotransfobia ao crime de racismo.

A etnografia de Clio Nudel Radomysler sobre a Promotoria de Justiça de Direitos Humanos da Inclusão Social do MP-SP, expondo tensões internas a um órgão constitucionalmente desenhado pelo art. 127 da CF/88 como defensor da ordem jurídica e dos interesses sociais.

O trabalho de Amanda Burg e coautores sobre a Ação Civil Originária 3.121, que questionou o fechamento de fronteira a refugiados e mobilizou a tese do Estado de Coisas Inconstitucional, formulada pelo STF na ADPF 347.

Base normativa e precedentes

  • Art. 102, I, a, CF/88 — competência originária do STF para julgar ADIs e ADCs, base do estudo quantitativo sobre padrões decisórios.
  • Lei 9.868/1999 — disciplina o processo e julgamento da ação direta de inconstitucionalidade e da ação declaratória de constitucionalidade.
  • ADI 4.277 e ADPF 132 (STF) — reconhecimento da união estável homoafetiva, marco para a leitura sobre direitos LGBT no Judiciário.
  • ADO 26 e MI 4.733 (STF) — criminalização da homotransfobia por equiparação ao racismo da Lei 7.716/1989.
  • ADPF 347 (STF) — fixou a tese do Estado de Coisas Inconstitucional no sistema prisional, retomada nos debates sobre refúgio.
  • Lei 9.474/1997 — define mecanismos de implementação do Estatuto dos Refugiados e do princípio do non-refoulement.
  • Convenção sobre Diversidade Biológica (Decreto 2.519/1998) e Lei 13.123/2015 — disciplinam acesso ao patrimônio genético e ao conhecimento tradicional associado, pano de fundo do estudo sobre a Phyllomedusa bicolor.
  • Tratado Interamericano de Assistência Recíproca (TIAR, 1947) — invocado nos debates sobre a crise venezuelana de 2019.

Impacto prático

O conjunto de pesquisas dialoga diretamente com a atuação profissional em diferentes frentes:

  • Advocacia constitucional: análises quantitativas sobre ADIs ajudam a calibrar estratégias de litigância, antecipar chances de procedência e dimensionar pedidos de modulação de efeitos sob o art. 27 da Lei 9.868/1999.
  • Advocacia de direitos humanos e minorias: o mapeamento da jurisprudência LGBT consolida repertório argumentativo para demandas individuais e coletivas, sobretudo em juízos de primeiro grau ainda resistentes aos precedentes do STF.
  • Ministério Público e Defensoria: a etnografia sobre o MP-SP sinaliza obstáculos institucionais à atuação em direitos humanos, relevantes para concursandos e para a discussão sobre desenho de carreiras.
  • Direito migratório: a leitura do refúgio sob o ECI fortalece teses de litigância estrutural contra atos do Executivo que restrinjam o ingresso de solicitantes.
  • Direito digital e empresarial: os estudos sobre nomes de domínio sob a ótica da AED e sobre contratos inteligentes na Colômbia fornecem subsídio comparado para escritórios que atuam com legaltech e propriedade intelectual.

O que observar

A edição reforça uma tendência: decisões do STF passam a ser avaliadas não apenas pela qualidade argumentativa, mas pela consistência estatística de seus padrões — abrindo espaço para teses sobre coerência sistêmica e segurança jurídica. Profissionais devem acompanhar como esse instrumental empírico será incorporado em petições, amicus curiae e pareceres, especialmente em temas sensíveis como modulação, repercussão geral e controle concentrado. Outro ponto de atenção é a consolidação do Estado de Coisas Inconstitucional como categoria operativa para além do sistema prisional, com potencial expansão para refúgio, saúde mental e crise climática. Por fim, a publicação simultânea em português, inglês e espanhol indica disputa por audiência regional, sinalizando que a doutrina brasileira começa a se posicionar como referência no debate jurídico latino-americano.

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